sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Governo e Economia

Leviatã, de Thomas Hobbes


É uma verdade patente a todos que o governo brasileiro intervém maciçamente na economia. Não só isso, mas a própria cultura nacional é construída de forma que o brasileiro, desde muito cedo, aprende a ver o governo como uma espécie de Messias salvador, como aquele que tem a responsabilidade de solucionar todos os problemas sociais e de garantir uma vida digna a todos.

O fenômeno estatista não é observado com exclusividade em terras tupiniquins. De fato, é um fenômeno mundial, e de natureza essencialmente religiosa. Não trataremos de suas origens neste artigo.

O governo é, segundo Mises, o aparato social de coerção e compulsão. Sua função, de acordo com São Paulo, é ser um ministro vingador de Deus, aquele que detém o poder da espada (uso da força) para punir criminosos (Romanos 13:1-6). O estado não é uma empresa. Não fornece nenhum serviço sujeito à vontade soberana do consumidor. O estado existe e atua independentemente de nossa vontade e, mais do que isso, o estado tira sua receita através da força bruta. Nós não pagamos impostos voluntariamente ao estado. Pagamos porque somos obrigados a pagar.

Grande parte da sociedade em geral, e dos economistas em particular, acredita que, em tempos de crise, o estado deve entrar na economia para estimular a demanda. O arcabouço intelectual que sustenta esta crença é a doutrina Keynesiana, que tem seu nome emprestado do economista britânico John Maynard Keynes. Após a grande crise de 1929, Keynes postulou que, em vista do altíssimo e crescente desemprego e do esfriamento da atividade econômica, era necessário que o estado investisse em obras públicas e outras benesses com o objetivo de estimular a demanda. Assim, pensava Keynes, o estado estaria ativando a economia, visto que com mais demanda, mais investimentos seriam gerados e mais empregos, por consequência, seriam criados.

Esta teoria espalhou-se por todo o mundo Ocidental e pôs fim à era dourada do liberalismo econômico do século XIX. O Leviatã, agora, acordara e voltara à ativa. Os anos 30 do século XX viram o tamanho do estado aumentar de forma nunca antes vista. Criava-se, assim, o estado de bem-estar social. A euforia tomava conta da sociedade, afinal, tudo estaria bem com o estado sustentando a economia e cuidando cada vez mais das necessidades dos cidadãos.

Apesar dos efeitos iniciais aparentemente benéficos, os economistas austríacos[1] sempre alertaram para o resultado da intervenção a longo prazo. Seu alerta deriva-se do postulado misesiano da ação humana. Para entendermos minimamente o motivo pelo qual a ação do estado na economia não é benéfica e, a longo prazo, é destruidora, precisamos entender esse postulado.

O Postulado da Ação Humana

Ludwig von Mises (1881-1973) postulou o seguinte: o homem age. Inicialmente, este postulado pode ser bem óbvio e simples. No entanto, ele tem consequências importantíssimas para a economia. A ciência econômica só pode ser corretamente entendida pelo postulado de Mises. De outro modo, tudo que teremos serão falsas teorias e, como consequências, políticas econômicas desastrosas.

Quando dizemos que o homem age, significamos o seguinte: o homem prefere uma coisa à outra, como forma de satisfazer algum propósito. Este postulado é uma verdade a priori, ou seja, não necessita da experiência para prová-la. Na verdade, a experiência não pode negá-la jamais. É uma verdade fundamental do homem, a respeito de sua estrutura natural. É como as verdades matemáticas, que são todas derivadas da estrutura lógica da mente humana. Quando Gottfried Leibniz desenvolveu o conceito de integral, não era necessário ir a um laboratório e verificar experimentalmente aquele fato, como foi para Newton demonstrar suas leis da mecânica.

Negar o postulado da ação humana é uma tarefa impossível. Negar algo implica numa ação, o que por sua vez já demonstra a validade do teorema. Também devemos ter em mente que o postulado não depende da psicologia. Basta a nós a verdade de que os homens agem com um propósito de reduzir ou evitar algum desconforto. Os motivos da mente que levam os homens ou grupos de homem a agirem de determinada maneira não importam à ciência econômica.

Corolário: Relação Custo-Demanda

Um corolário importante do postulado da ação humana é a simples, contudo importante, lei da economia que diz que a demanda por algo é proporcional ao seu custo. Se o custo para alguém tomar uma decisão qualquer aumenta num dado espaço de tempo, o número de indivíduos que terão o propósito daquela ação em valor mais alto do que o novo custo será menor. Assim, menos pessoas atuarão daquela maneira. Este é exatamente o propósito da lei civil, e tal lei está de acordo com a determinação divina da punição aos criminosos.

O homem, pois, que se houver soberbamente, não dando ouvidos ao sacerdote, que está ali para servir ao Senhor teu Deus, nem ao juiz, esse homem morrerá; e tirarás o mal de Israel;
Para que todo o povo o ouça, e tema, e nunca mais se ensoberbeça.

Deuteronômio 17:12-13
O homem, pois, que se houver soberbamente, não dando ouvidos ao sacerdote, que está ali para servir ao Senhor teu Deus, nem ao juiz, esse homem morrerá; e tirarás o mal de Israel; para que todo o povo o ouça, e tema, e nunca mais se ensoberbeça. 
(Deuteronômio 17:12-13)

Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal.(Romanos 13:3-4)

Este corolário é especialmente importante para entendermos o motivo da intervenção governamental na economia ser prejudicial em todos os aspectos, conquanto possa parecer benéfica em primeira instância.

A Falácia da Janela Quebrada

O que significa dizer que o governo interviu na economia? Significa que ele injetou dinheiro investindo em obras ou projetos que gerem algum tipo de demanda. O que precisamos nos perguntar, entretanto, é: de onde vem este dinheiro? E a resposta é: do mesmo lugar de onde o governo tira seu dinheiro, ou seja, de impostos.
Quando entendemos que o dinheiro que o governo "investe" na economia é tomado a força de seus cidadãos, então podemos ver a razão de chamarmos esta intervenção de falácia da janela quebrada. A validade desta doutrina é a mesma validade da afirmação de que quebrar janelas em um bairro pode ser bom para a economia local, pois estimulará a industria a produzir mais vidros. Isto é o que se vê. O que se não vê é o fato de que o dinheiro que foi gasto na compra de janelas foi drenado de outros gastos que estavam mais de acordo com os desejos e planos dos moradores locais. Ou seja, todos se tornaram relativamente mais pobres, porque menos pôde ser gasto para satisfação de seus desejos. 

O mesmo podemos dizer de guerras. Guerras destroem, não criam. Numa guerra, um povo precisa se preocupar com necessidades que, em tempos de paz e prosperidade, estariam longe de suas mentes. Se vêem obrigados a gastar de forma que, caso houvesse paz, não gastariam. Em outras palavras, estão mais pobres. A situação é análoga a de um lugar com muita violência.

Note que todas estas conclusões foram tiradas de um só lugar: o postulado da ação humana. Fica mais fácil agora entender sua importância.

Tipos de Imposto

As conclusões acima sobre a intervenção do governo, alguns dizem, só são válidas em alguns casos, e dependem de como e quanto o governo gasta. Vamos demonstrar aqui que isto não é verdade.

Muitos economistas adeptos de doutrinas intervencionistas pregam que tais efeitos negativos serão visíveis se o estado tirar toda ou grande parte de sua receita através da taxação incidente sobre os bens de consumo. Isto, argumentam eles, não pode aquecer a economia de forma alguma visto que, embora a intervenção governamental possa estimular a demanda por um lado, ela a onera por outro, ao taxar os consumidores.

Na verdade, a espoliação estatal do dinheiro do consumidor e a consequente drenagem deste dinheiro para os "investimentos" estatais acaba estimulando o consumo. O grande problema é que este dinheiro não está sendo usado para satisfazer as necessidades dos consumidores, embora a mensagem que o governo passe ao "investi-lo" é exatamente esta. Em tempos de crise, então, quando um governo toma dinheiro dos consumidores e o consome totalmente, o que ocorre é mais distorção da relação consumo-investimento, e menos satisfação dos desejos dos consumidores. Assim, mais erros foram introduzidos no sistema econômico, e não a solução. Murray Rothbard explica porque tais "investimentos" na verdade não são investimentos:

Em anos recentes, particularmente na literatura sobre os "países subdesenvolvidos," tem havido um grande volume de discussões sobre "investimentos" governamentais. Entretanto, tal investimento não pode existir. "Investimento" é definido como um gasto feito não para a satisfação direta daquele que o fez, mas de outros, os consumidores finais. Máquinas são produzidas não para satisfazer o empreendedor, mas para servir os consumidores finais, que, em troca, remuneram o  empreendedor. Mas o governo adquire seus fundos tomando-os à força dos indivíduos; o gasto dos fundos, portanto, gratifica os desejos dos oficiais do governo. Oficiais do governo forçosamente deslocaram a produção da satisfação do desejo dos próprios consumidores para a satisfação deles próprios; seus gastos são, portanto, puro consumo e não podem jamais ser chamados de "investimento." [2]

O problema torna-se pior dada a sugestão que o estado taxe os mais ricos, suas propriedades e fortunas, e não os mais pobres. Entretanto, essa sugestão não considera propriamente o postulado da ação humana. 

O que move uma economia é a acumulação de capital: é poupar no presente para investir no futuro. É por este mesmo motivo que a fortuna dos ricos tem grande papel social: investimento. Não fossem os ricos, os pobres não teriam a vida muito superior que tem hoje, comparada a 100 ou 200 anos atrás. O luxo de ontem torna-se o comum de hoje através das acumulação de fortunas e do uso das mesmas em grandes investimentos.

Quanto mais o estado onera (aumenta o custo) a acumulação de riquezas, menos investimentos privados e acumulação de riqueza haverá. É correto concluir que isso forçará um consumo maior de riquezas no presente em detrimento do futuro. Mais uma vez, as vantagens de tais políticas podem ser aparentemente boas a curto prazo, mas são destrutivas a longo prazo. É a velha falácia da janela quebrada.

Novamente, vemos que tais verdades estão em completo alinhamento à verdade revelada de Deus. A única forma de maximizar a prosperidade de uma sociedade é através do estabelecimento e do respeito à propriedade privada. Qualquer intervenção onera o proprietário e desestimula investimento correto. Por este motivo mesmo aprouve a Deus estabelecer a propriedade privada, absoluta (em termos relativos aos homens). "Não roubarás" (Êxodo 20:15) é o mandamento mais importante para a ciência econômica.

O Imposto Inflacionário

Há ainda uma outra forma de intervenção estatal na economia, que é tida por muitos como a maneira ideal de vencermos a escassez e criarmos prosperidade quando quisermos. Tal maneira é a criação de dinheiro. 

O estado intervencionista gasta muito. Em geral, gasta mais do que arrecada. A isto chama-se deficit público nominal. A dívida pública é um problema crescente em muitos países. A solução encontrada por muitos é possível apenas pela realidade do monopólio estatal do sistema monetário[3]. É a impressão de dinheiro. Isaías, falando a mensagem de Deus a Israel, declarou:

A tua prata tornou-se em escórias, o teu vinho se misturou com água.
(Isaías 1:22)

A maneira pela qual a prata (dinheiro) pode tornar-se em escória é pela falsificação monetária. Em tempos passados, quando o dinheiro era ouro e prata, era comum a prática fraudulenta de falsificação monetária. Cunhava-se uma moeda e adicionava-se a seu peso metais baratos, imperceptíveis a olho nu. Assim, uma moeda de 20g de prata continha apenas 18. 2g eram literalmente roubadas pelo falsificador.

Esta prática torna-se comum geralmente quando os governos declaram-se o detentor da autoridade de cunhar moedas. A falsificação de moeda é um meio eficiente de o estado aumentar seus gastos e estender seu poder e influência. 

Esta prática é a mesma de hoje: governos imprimem dinheiro para sustentar seus gastos deficitários. Com esta falsificação, o governo está tirando valor de cada unidade monetária, visto que um maior volume de dinheiro diminui sua utilidade marginal[4] e, consequentemente, seu poder de compra. Por isso tal prática é conhecida como imposto inflacionário. O dinheiro novo criado não vem de graça. Além disso, tal prática é fundamentada no pressuposto de que o estado pode criar prosperidade ex-nihilo, ou seja, do nada. O estado, assim, se assenta no trono do próprio Deus. Mais uma vez, as sanções não tardam a vir. Com o aumento da inflação, o poder de compra da população cai e há um relativo empobrecimento. Nós, brasileiros, sabemos bem o que é isso. Há pouco mais de vinte anos vivíamos numa gravíssima hiperinflação. Julgamentos seguem-se à insistência dos homens em desobedecer à lei de Deus. É inevitável.

Conclusão
Vimos que qualquer meio de intervenção estatal na economia é prejudicial. Desvia o foco de investimentos realmente necessários que só o livre-mercado pode satisfazer. Pode causar benefícios imediatos, mas causa empobrecimento relativo com o passar do tempo. As leis da economia são uma, universais. Estado e economia é uma combinação insustentável.

Referências

[1] - Refere-se aos economistas da escola austríaca, independente de suas nacionalidade.

[2] - Ver Murray Rothbard, "A Grande Depressão Americana", p. 20, 5a. Edição.

[3] - Para mais informações sobre como os estados modernos apossaram-se do sistema monetário e excluíram o ouro e a prata do mercado conferir Murray Rothbard, "O que o governo fez com o nosso dinheiro." Disponível gratuitamente aqui.

[4] - Para saber mais sobre utilidade marginal, conferir Ludwig von Mises, "Ação Humana - Um Tratado de Economia," capítulo 7, seção 1. Disponível gratuitamente aqui. Conferir também artigo de Thorsten Polleit, "O que a lei da utilidade marginal decrescente pode nos ensinar?" Disponível aqui.




sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A Negação da Economia

Por Ludwig von Mises

Existem doutrinas que simplesmente negam a existência de uma ciência econômica. O que hoje em dia se ensina nas universidades sob o rótulo de economia é praticamente uma negação da economia.

Aquele que contesta a existência da economia está virtualmente negando que o bem estar da humanidade possa ser afetado pela escassez de fatores externos. Imagina que todo mundo poderia desfrutar a perfeita satisfação de todos os seus desejos, desde que fosse feita uma reforma para superar certos obstáculos causados por instituições inadequadas feitas pelo homem. A natureza é pródiga e generosamente cumula a humanidade com presentes. As condições poderiam ser paradisíacas para um número ilimitado de pessoas. A escassez é uma situação artificialmente criada por práticas estabelecidas. A abolição dessas práticas resultaria em abundância.

Na doutrina de Karl Marx e de seus seguidores, a escassez é apenas uma categoria histórica. É a parte essencial da história primitiva da humanidade que desaparecerá para sempre pela abolição da propriedade privada. Assim que a humanidade efetuar a transição do mundo de necessidade para o mundo de liberdade, atingindo desta forma "a fase superior da sociedade comunista", haverá abundância e, consequentemente, será possível dar "a cada um de acordo com suas necessidades". Não há, no vasto fluxo de escritos marxistas, a menor alusão à possibilidade de que uma sociedade comunista da "fase superior" possa ter que enfrentar uma escassez dos fatores naturais de produção. A realidade da existência da desutilidade do trabalho desaparece pela afirmativa de que trabalhar, numa sociedade comunista, evidentemente não será um encargo, mas um prazer, "a necessidade primordial da vida". As desagradáveis realidades da "experiência" russa são atribuídas à hostilidade dos capitalistas, ao fato de o socialismo não ter ainda alcançado sua "fase superior" por ter sido implantado apenas em um país, e, mais recentemente, pela guerra.

Existem também os inflacionistas radicais, como por exemplo, Proudhon e Ernest Solvay. Para eles, a escassez é criada por restrições artificiais à expansão do crédito e outros métodos de aumentar a quantidade de dinheiro em circulação, restrições essas que são impostas ao público crédulo pelos egoísticos interesses de classe dos banqueiros e de outros exploradores. Recomendam como panaceia que as despesas públicas sejam ilimitadas.

Tal é o mito da possibilidade de fartura e abundância. A economia pode deixar aos historiadores e psicólogos a tarefa de explicar a popularidade dessa maneira de tomar os desejos por realidade e de satisfazer-se com fantasias. O que a economia tem a dizer sobre essa conversa fiada é que a economia lida com os problemas que o homem tem que enfrentar devido ao fato de que sua vida é condicionada por fatores naturais. Lida com a ação, isto é, com os esforços conscientes para diminuir tanto quanto possível o desconforto. Não tem nada a dizer sobre o que sucederia num mundo, não só inexistente como também inconcebível para mente humana, onde as oportunidades fossem ilimitadas. Em tal mundo, pode-se admitir, não haveria nem lei de valor, nem escassez, nem problemas econômicos. Essas coisas não existiram porque não haveria escolhas a serem feitas, não haveria ação nem tarefas a serem resolvidas pelo raciocínio. Os seres que porventura tivessem florescido num tal mundo jamais teriam desenvolvido o raciocínio e o pensamento. Se algum dia um mundo assim fosse dado aos descendentes da raça humana, estes seres bem-aventurados veriam sua capacidade de pensar se atrofiar e deixariam de ser humanos. Porque a tarefa primordial da razão é enfrentar conscientemente as limitações que a natureza impõe ao homem, é lutar contra a escassez. O homem que age e que pensa é o produto de um universo de escassez onde qualquer gênero de bem estar que possa ser alcançado será fruto de esforço e preocupação, de uma conduta que comumente chamamos de econômica*.

Sobre o autor: Ludwig von Mises (Lviv, 29 de Setembro de 1881 — Nova Iorque, 10 de Outubro de 1973) foi economista, filósofo e grande defensor da liberdade econômica como suporte básico da liberdade individual, é um dos ícones da escola austríaca.

Em um de seus livros, Ação Humana (Human Action em inglês), apresentou os fundamentos metodológicos dessa escola e integrou a teoria austríaca. Publicou ainda diversas outras obras, muitas delas se encontram em português publicadas pelo Instituto Liberal e todas elas, na versão em inglês, podem ser baixadas gratuitamente do site do Instituto Ludwig von Mises. Entre outros, ele desenvolveu uma teoria do ciclo de negócios baseada nas mudanças das relações do mercado de crédito, e uma teoria sobre a impossibilidade do cálculo econômico no socialismo.

Sobre o texto: O texto é parte do capítulo 14 do livro Ação Humana, Um Tratado de Economia. Baixe gratuitamente o livro aqui.

Notas do Editor

* Aqui, Mises escreve de acordo com sua pressuposição humanista evolucionista. Deus criou e e dotou o homem de pensamento e de capacidade para agir e, originalmente, tal capacidade tem o propósito de ser usada no Pacto de Domínio. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Falácia da Janela Quebrada



O brasileiro precisa aprender a falácia da janela quebrada. Elaborada por Frédéric Bastiat, em curtas linhas, ela diz o seguinte: se eu quebrar a janela do meu vizinho, essa aparente destruição será benéfica para a economia pois forçará o vizinho a comprar mais vidro para a janela, movimentando o mercado de vidros.

Economistas intervencionistas acreditam e pregam que, se o governo gastar dinheiro em obras públicas monumentais, projetos gigantescos, educação, saúde e afins, ou, em outras palavras, se o governo aumentar absurdamente seus gastos, estará estimulando a economia, ajudando assim, um mercado esfriado.

Ocorre que, assim como no caso da janela quebrada, há efeitos indesejáveis não observados também. Da mesma maneira que o vidraceiro lucrou com o vidro quebrado, todos aqueles que se beneficiariam do dinheiro que o dono da casa usaria CASO A JANELA não tivesse sido quebrada, estarão agora em desvantagem. Em suma, a janela quebrada movimenta artificialmente algumas áreas da produção e prejudica outras.

Precisamos entender que o governo gastar muito não significa um estímulo real à economia. O motivo é simples: o dinheiro que o governo gasta não é dele. É meu. É seu. Quanto mais ele gasta, mais NÓS deixamos de gastar. Quanto mais ele gasta, mais NÓS deixamos de produzir.  Esta é, em suma, a crítica fundamental da ciência econômica (a ortodoxa, e não a podridão ideológica travestida de ciência) à intervenção estatal, que quanto mais o estado pratica espoliação para financiar seus projetos, MAIS ele onera setores produtivos e, aumenta os custos da produção e, consequentemente, DIMINUI a capacidade produtiva do país e o bem-estar geral. Toda política socialista é assim. Está fadada ao fracasso. O que muda é quanto tempo demora para evidenciar-se tal fracasso (dependendo da gradação da política socialista e do capital acumulado pelo livre mercado no país).

É por este motivo que o capitalismo livre mercado, com uma defesa rígida da propriedade privada dos meios de produção e das entradas monetárias provindas do seu uso, é o ÚNICO sistema capaz de GERAR riqueza e aumentar, progressivamente, o bem-estar geral.

Por Matheus Henrique.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A Lei de Comte e a História

Por R. J. Rushdoony

A historiografia agnóstica e ateísta começa com um ato fundamental de fé, a fé de que Deus nada tem a ver com a história. Essa premissa nada tem a ver com a ciência ou com a história: é um teorma pré-teórico através do qual toda fatualidade é analisada. Isso, Lucrécio afirmou aberta e claramente: "O princípio básico a que nos devemos ater como nosso principal é que nada jamais fora criado por divino poder."[1] Através deste ato de fé é a história declarada ser a arena da ação humana, a parte de qualquer determinação ou operação divinas.

Feita tal premissa, os acadêmicos então prosseguem em aplicá-la à história. A história, assim, torna-se simplesmente a luta e o desenvolvimento do homem num universo desprovido de sentido. Essa aplicação é, então, tomada como “prova” da premissa mesma que a produziu! Claramente, isto é um raciocínio cíclico: é um raciocício de fé em fé, e culpado do próprio processo do qual acusa os Cristãos.

Um exemplo clássico é a “Lei dos Três Estágios” de Augusto Comte (1798-1857) em A Filosofia Positiva. Comte negou a Deus; portanto, a presença de Deus na história era mitológica, e o progresso na história era o progresso da teologia à ciência positivista. Os três estágios pelo qual cada ramo do conhecimento passa são, portanto, o Teológico ou fictício; o Metafísico ou abstrato; e o Científico ou positivo. O homem passa de um desejo pelo significado a um reconhecimento pragmático de que significado não existe e deve, na realidade, ser analisado metodologicamente e pragmaticamente. Através desse esquema simples, Comte aplicou a doutrina da evolução social (que muito precedeu a evolução biológica) à história e relegou a teologia à idade do mito. Que o esquema geral de Comte ainda é tão extensivamente adotado, é evidência do poder da fé sobre o fato, porque a história claramente mostra um quadro bem diferente.

É possível, com bastante precisão e por conveniência, dividir o desenvolvimento do pensamento em três bem diferentes estágios, esses, sim, sobremodo aparentes na história. O primeiro estágio do pensamento humano foi a cosmovisão político-mágica. A não ser pelos Hebreus, essa perspectiva governou toda a antiguidade, governava o Império Romano na era Cristã e, desde então, contina a governar o mundo não Cristão. Para entendermos o significado da cosmovisão político-mágica, é importante definirmos o que é mágica.

Uma definição assim requer uma distinção entre a técnica e o propósito da mágica. Muito comumente, a mágica é explicada em termos de técnicas primitivas e é, assim, expelida da cosmovisão moderna. Entretanto, a mágica é melhor definida em termos de seu propósito; as técnicas tem variado de cultura para cultura, mas o propósito permanece intacto. O propósito da mágica é ganhar controle autônomo sobre o homem, sobre a natureza e sobre o sobrenatural, controle sobre a totalidade do que realmente existe, como quer que isso seja definido. A ciência moderna, tendo firmemente abandonado suas origens Cristãs, é governada cada vez mais por mágica, por um desejo de controle total sobre a realidade. Na perspectia bíblica, a ciência é uma atividade necessária da sociedade e do homem piedosos ao passo que eles buscam entender e subjugar a terra sob Deus e em obediência ao Seu mandato cultural dado na criação. Na fé mágica, o homem almeja o controle total um ato em desprezo, desafio e descrença.

Desde o começo da história, um dos melhores, se não um dos mais fáceis, meios de exercer este controle tem sido pelo controle político. Como resultado, mágica e política fizeram aliança desde cedo. A consequência foi que, na antiguidade, a salvação não era religiosa; a salvação era política. A religião era um aspecto subordinado da vida antiga, simplesmente um departamento do estado, uma divisão de bem-estar social e obras públicas. A orientação principal do homem era política; pode-se dizer que sua religião era política, se usarmos religião como veículo de salvação. O estado e seus governantes, nesta comovisão político-mágica, eram, em certo sentido, divinos: eram os controladores da totalidade da realidade. A comovisão político-mágica suplantou, assim, Deus e a religião com uma ordem mágica totalitária.

Mesmo um olhar passageiro em culturas antigas e não Cristãs revela a prevalência dessa ordem políto-mágica. A adoração a Baal no Oriente Médio era a adoração dos senhores, naturais e políticos, que governavam toda a realidade.  Os governantes políticos prontamente adotavam o baalismo em vista de comandar aquele controle total oferecido por esta cosmovisão político-mágica. A adoração a Moloque, com sua demanda por sacrifícios humanos, era político-mágica, e Moloque significava literalmente “rei.” Os curandeiros das tribos indígenas Americanas tinham pouca relação com religião; sua função era mágica, e a medicina era uma faceta de seu controle sobre a realidade. As tentativas do césaro-papismo de absorver a Igreja Cristã representa uma tentativa de reduzir a igreja a um aspecto da ordem político-mágica, em oposição a permitir que a igreja esmague aquela ordem e a refaça numa ordem religiosa.

O segundo estágio do pensamento humano tem sido o religioso ou Cristão. Com a vinda de Cristo, o estágio religioso, anteriormente altamente restringido aos Hebreus, agora iniciava sua caminhada em direção à conquista do mundo. O resultado foi a guerra imediata entre Cristo e os césares, que nada mais fora que uma batalha entre a cosmovisão politico-mágica e a cosmovisão bíblica. É o costume, agora, dos novos mitologistas, tratar a perseguição dos Cristãos como majoritariamente lendária. A realidade é muito diferente, entretanto. Roma engendrou uma tentativa de varrer o Cristianismo. Primeiramente, isso se deu pelo assassinato judicial de membros seletos e líderes. Finalmente, tornou-se a tentativa de assassinato em massa um povo inteiro. Foi uma longa e terrível batalha, mas o império, embora possuísse o poder da espada e de forma selvagem o utilizasse, finalmente perdeu.

Em Jesus Cristo a vida foi restaurada  de uma cosmovisão político-mágica a uma cosmovisão religiosa. Na queda de Adão, sua tentativa de ser como Deus (Gn 3:5), nasceu a perspectiva político-mágica. Na tentação de Cristo, a cosmovisão político-mágica foi vencida. Vida e salvação foram restauradas a uma dimensão religiosa.

O resultado foi uma nova historiografia. A velha fora nulificada. Ela simplesmente narrava a conquista de poder e era antiquada em tudo mais. Ao invés de movimento e progresso na história, a história antiga simplesmente citava poder e controle. Santo Agostinho apontou o conflito da história, a Cidade de Deus e a Cidade do Homem, entre a religião bíblica, entre o Cristianismo, e a ordem político-mágica. A história, portanto, tem um propósito, o triunfo da cidade celestial, e é, portanto, apta para o progresso. Há desenvolvimento em ambas as cidades, conforme cada uma exercita as implicações de suas pressuposições. O único desenvolvimento que Platão poderia visionar era um de grandes controle sobre o homem, uma ordem comunizada, porque sua perspectiva era político-mágica. Em Agostinho, a meta está aberta à imaginação: as cidades crescerão, não em controle, mas em suas auto-consciências epistemológicas, e o futuro é tanto certo como desconhecido. O progresso da história Ocidental é único na história do mundo; é simplesmente um produto do triunfo da cosmovisão bíblica, a substituição das ordens político-mágicas pela religião Cristã.

O terceiro estágio está agora em evidência: a tenttiva de restaurar a ordem político-mágica. A cosmovisão Cristã foi introduzida extensivamente em cada continente. Os leões adormecidos da ordem político-mágica levantam-se por toda parte. Na cultura Ocidental, eles estavam ativos nos avivamentos neo-platonistas, no Aristotelianismo, na Renascença e no Iluminismo. A ONU hoje é a ordem político-mágica mundial, e virtualmente o são também todas as nações. As igrejas foram largamente capturadas pela mágica e, de acordo, tem um evangelho social e político. A salvação tornou-se política novamente, e a salvação Cristã é ferozmente denunciada como irrelevante e obscurantista. A batalha ocorre entre o estado como deus e Deus como Deus.

Portanto, não é presunçoso postular a ascenção de ainda outro estágio, uma vez que Deus é Deus e Ele prevalecerá: uma ordem Cristã triunfante ao redor da terra, e a supressão da cosmovisão político-mágica. Uma vez que Deus tem tudo a ver com a história, cada amanhã é em termos dEle. Não há outra história.


Sobre o autor: Rousas John Rushdoony (25 de abril de 1916 - 08 de fevereiro de 2001) foi um filósofo calvinista, historiador e teólogo e é amplamente creditado como o pai do Reconstrucionismo Cristão e uma inspiração para o movimento de educação domiciliar cristão moderno. Seus seguidores e críticos tem argumentado que seu pensamento exerce considerável influência sobre a direita cristã evangélica.

Sobre o texto: O texto traduzido aqui é o capítulo 10 do livro The Biblical Philosophy of History.



[1] Esta tradução é dada por Gordon H. Clark: A Christian Philosophy of Education (Grand Rapids: Eerdmans, 1946), 31. Esta sentença de De Rerum Nature I, 148-150, é dada no livro Lucretius on The Nature of Things (Bohn’s Classical Library, 1904), 10, de John Selby Watson, como “nosso princípio primeiro deve daí tirar seu começo, QUE NADA É JAMAIS DIVINAMENTE GERADO DO NADA.”

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O Valor do Ouro - Parte II

B. Monopólio e Impureza

Quando os homens, seja como cidadãos ou como funcionários do governo, adulteram o teor de ouro e prata nas moedas, o desastre segue como resultado. Quando os corações dos homens são corrompidos, eles arriscam-se na produção de moeda adulterada e de bens de consumo corrompidos (Isaías 1:22).[1] Reis tem praticado tal engodo monetário desde que eles existem. Eles derramam metais mais baratos junto à prata ou ao ouro usado para convertê-los em lingotes ou moedas. Eles substituem as notas de papel ou cheques ou dígitos de computador por os metais preciosos e, em seguida, eles multiplicam as notas, cheques, ou dígitos de computador. Multiplica-se o dinheiro, sobem os preços e aumenta a redistribuição de riqueza através do engano. O governo civil incentiva a fraude, seja diretamente (degradação de valor, impressão dinheiro) ou indiretamente (banco central e bancos comerciais). Quando as autoridades do governo civil estampam um selo numa moeda ou numa nota atestando que uma quantidade e pureza específicas de um metal precioso estão contidas em uma moeda (ou que uma determinada quantidade deste metal está na reserva para a troca imediata pela nota de papel) e, posteriormente, falsificam o processo de cunhagem ou imprimem mais notas do que há de metal na reserva, eles, assim, agem de forma fraudulenta. Primeiro, criam um monopólio da emissão de dinheiro, e então abusam deste monopólio governamental. Eles põe o dinheiro fiduciário em circulação pela compra de recursos econômicos escassos do mercado. O estado, portanto, aumenta o seu consumo através da cobrança do "imposto invisível" da inflação monetária.

O monopólio do dinheiro irroga perigos a todos, mas os cidadãos mais alertas e os beneficiários do estado se favorecem. As autoridades não podem resistir muito tempo à tentação de cobrança do imposto invisível da inflação de preços. É verdade que Bizâncio foi abençoada com uma cunhagem de ouro estável por mais de 700 anos, mas esse caso foi único na história do homem.[2]

Por esse motivo, a inflação da oferta de moeda tem sido uma característica da história humana desde o início dos registros históricos. Governos trapaceiam. Governos civis honestos não são os criadores de dinheiro; eles são, no máximo, certificadores de dinheiro. É por isso que a Bíblia repetidamente adverte sobre o pecado de pesos e medidas fraudulentos.[3] Isso está ligado à justiça (Lv 19: 33-37;[4] Dt 25:13-16[5].). Quando Jeremias comprou o campo do seu parente, ele "subscreveu a evidência, e fechou-a e levou testemunhas, e pesou ele o dinheiro numa balança" (Jer. 32:10). O dinheiro, neste caso, era 17 siclos de prata (Jr 32:9). O aviltamento da moeda não é nada menos do que adulterar os pesos e medidas, seja por cunhadores privados, falsificadores, ou funcionários do Estado.

A abolição do padrão-ouro no século XX, durante e depois da Primeira Guerra, levou diretamente a uma inflação universal, revolução e ciclos comerciais de expansão e recessão nesse mesmo período histórico. Não há escapatória da lei moral de Deus, mesmo que economistas profissionais não reconheçam a existência de tal ordem moral. Os padrão ouro e prata para moedas, ou padrões múltiplos de moedas livremente intercambiáveis, é o resultado direto da aplicação da lei bíblica.

A abolição de pesos e medidas honestos através da criação do sistema bancário de reservas fracionárias, impressão de moeda, aviltamento de moeda, ou raspagem de moeda, deve inevitavelmente resultar em repercussões econômicas e sociais desagradáveis. Quando alguém emite um recibo por metal de uma certa pureza e peso, ele deve ter exatamente aquilo na reserva. Emitir mais recibos de reserva (notas bancárias) do que a quantidade de metal realmente existente é nada menos do que adulterar as medidas, pois os resultados são idênticos ao aviltamento de moeda. É o mesmo pecado; e deve resultar no mesmo julgamento. Vivemos num universo que é pessoal e governado por uma lei moral. Crises econômicas são os dispositivos imbutidos autorreguladores – imbutidos no homem e na criação – que  refream os homens em sua busca por fazer o mal. Pesos desonestos, dinheiro desonesto, autoridades desonestas e culturas desonestas andam de mãos dadas.

Conclusão

Embora o Império Romano seja, hoje, nada mais do que pó, suas moedas de ouro e de prata ainda podem ser trocadas por bens econômicos escassos. Os Césares estão em suas tumbas já há milênios, sua autoridade está há muito destruída, mas as moedas que carregam suas faces podem ainda comprar bens e serviços. Os homens ainda imputam valor a metais preciosos muito tempo depois de eles cessarem de imputar valor a um dado regime político. Moedas de metais preciosos duram mais que governos civis. O ouro pode ser dinheiro. A prata pode ser dinheiro. Assim tem sido desde o começo da história escrita, e assim será até o fim.
      O ouro de Havilá era bom. Era ouro de alta qualidade. Era ouro desejável. Porém, mais do que isso, ele não era tão facilmente falsificável, especialmente por governos civis iníquos.[6] Isso é mais do que podemos dizer sobre notas bancárias, cartões de créditos e dinheiro fiduciário não lastreado.

Sobre o autor: Gary North, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história. North é um teórico reconstrucionista Cristão americano e historiador econômico. Já escreveu e foi co-autor de mais de 50 livros com tópicos variando entre teologia Cristã, economia e história. Visite seu website.

Sobre o texto: O texto é parte do capítulo 7 do livro Sovereignty and Dominion - An Economic Commentary on Genesis Vol. I. Baixe gratuitamente o livro aqui.

Traduzido e revisado por Matheus Henrique.

Parte I



[1] Gary North, Restoration and Dominion: An Economic Commentary on the Prophets (Dallas, Georgia: Point Five Press, 2012), cap. 3.
[2] “Byzantine Coinage,” Wikipedia.
[3] R. J. Rushdoony, Institutes of Biblical Law (Nutley, New Jersey: Craig Press, 1973), pp. 468–72.
[4] Gary North, Boundaries and Dominion: An Economic Commentary on Leviticus, 2a ed. (Dallas, Georgia: Point Five Press, [1994] 2012), cap. 19.
[5] Gary North, Inheritance and Dominion: An Economic Commentary on Deuteronomy, 2nd ed. (Dallas, Georgia: Point Five Press, [1999] 2012), cap. 65.
[6] Gary North, Honest Money: The Biblical Blueprint for Money and Banking (Ft. Worth, Texas: Dominion Press, 1986). (http://bit.ly/gnmoney)

domingo, 27 de julho de 2014

O Valor do Ouro - Parte I

Por Gary North

E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. (Gênesis 2:12)


O princípio teocêntrico aqui é a doutrina da imputação de Deus: execução de julgamento. Este é um aspecto do ponto quatro do pacto bíblico: julgamento.[1]

Ao descrever a terra de Havilá, Moisés destacou suas pedras e metais preciosos. (Alguns pensam que o bdélio era uma planta ou um produto vegetal.) Esta é a única referência a objetos inanimados antes da rebelião do homem que especificam sua qualidade única. Moisés entendeu que o povo de seus dias compreenderia o valor de uma terra que possuia jóias e ouro. O lugar original de responsabilidade do homem era uma terra esplêndida, e a presença de ouro fino era uma de suas marcas de esplendor. A generosidade de Deus para com o homem era, à primeira vista, patente a qualquer leitor ou ouvinte do relato de Moisés sobre o ambiente em que Adão vivia.

Jóias e metais preciosos tem sido considerados como objetos básicos de riqueza desde que temos registros da atividade humana. O ouro tem sido uma forma de dinheiro há tanto tempo quanto podemos investigar. Seu brilho, durabilidade, maleabilidade e respeito universal como metal de valor contínuo fizeram dele um recurso econômico ímpar. Sua escassez em relação ao alto valor posto pelo homem  na posse do metal (alta utilidade marginal) fez do ouro uma moeda universal. Ouro é algo que vale a pena possuir. Mesmo Adão no jardim poderia ser considerado, em retrospecto, como abençoado, Moisés deixou isso claro – o que faz ainda maior sua rebelião ética. Em uma criação perfeita, que Deus pronunciou como boa, ouro e jóias eram considerados como algo peculiar.

A - O Ouro como Dinheiro

O ouro é o dinheiro universal. Onde quer que os homens comercializem e troquem, eles respeitam o outro como um meio de troca. Por quê? O que é dinheiro, e por que deveria o ouro servir como seu arquétipo universal? Dinheiro é simplesmente o bem mais comerciável.[2] De um modo ou de outro, o dinheiro deve possuir as seguintes características: divisibilidade, durabilidade, transportabilidade, fácil reconhecimento e escassez em relação à demanda (alta utilidade marginal). Muitos objetos tem funcionado como dinheiro ao longo da história humana. Gado, metais preciosos, sal, conchas e mesmo mulheres tem servido como unidades contáveis. (Divisibilidade tem sempre sido um problema com mulheres; meia mulher é pior do que nenhuma.) O dinheiro deve servir como uma unidade comum de conta. Geralmente, é referido como uma “reserva de valor,” embora a terminologia é enganosa porque infere que há algum valor objetivo no dinheiro à parte do valor subjetivo imputado pelo homem quando opera em mercados competitivos. Podemos dizer, de uma forma melhor, que o dinheiro é algo valioso para se guardar. Mais importante, o dinheiro tem valor histórico. Ele tinha valor ontem, ou talvez séculos atrás, e comerciantes podem assumir que uma forma particular de dinheiro será também valiosa no futuro. Esta continuidade de valor através do tempo é soberana em estabelecer um bem particular como uma unidade monetária aceitável.

Há um problema teórico com esta análise. Se o dinheiro é valioso como dinheiro, hoje, porque era valioso como dinheiro ontem, como podemos explicar a origem do dinheiro? Este problema foi solucionado pelo “teorema da regressão” de Mises em seu livro de 1912, Teoria do Dinheiro e Crédito. Em algum ponto da história de uma unidade monetária particular, ela deve ter sido valorada por outras de suas propriedades. Talvez sua beleza tenha sido central. Possivelmente foi usada como um ornamento ou como um objeto sagrado. O agente homem pode ter imputado valor ao metal ou outro objeto por motivos diversos além de seu valor prévio como meio de troca. O argumento de Mises é plausível, mas ainda é uma forma de “história conjectural.” Quanto à origem do dinheiro, somente podemos especular.

O que realmente sabemos é que Deus chama a atenção para a posição especial de ouro e as pedras preciosas de Havilá. Ele espera que os homens reconheçam a natureza especial do Seu dom para a humanidade ao fornecer ativos que são quase universalmente reconhecidos como valiosos. Sua beleza aos olhos dos homens - uma indicação de padrões universais de beleza entre eles - e sua escassez (alta utilidade marginal) em relação à demanda universal pelas jóias ou ornamentos de ouro resultam na criação do que parece ser um valor objetivo de ouro e jóias. Isto é o mais próximo que devemos chegar de atribuir valor "objetivo" ou "intrínseco" ao ouro, à prata, ou a alguma outra forma universalmente reconhecida de dinheiro. A aceitabilidade quase universal do ouro em trocas voluntárias entre os homens produziu valor histórico de tal durabilidade para o metal, que os homens falam de valor intrínseco do ouro. Mas esse suposto "valor intrínseco do ouro" é melhor entendido como um desejo quase intrínseco pelo próprio ouro entre os homens. Mesmo assim, esse desejo nunca é uma emoção fixa, independente de tempo e de lugar. Não há valor de mercado fixado para o ouro, não há "preço inato" do ouro. O ouro não é uma referência econômica fixa universal para todas as trocas de mercado. No entanto, Deus providenciou ouro de alta qualidade para Adão, e Adão e seus herdeiros eram (e são) instados a reconhecer a generosidade de Deus a esse respeito. O dom do ouro era, de fato, um bem precioso. E ainda o é.

O uso do ouro e da prata como ornamentos é um fato registrado pela Bíblia. A Concordância de Strong enumera três colunas de entradas de rodapé para versículos que se referem à prata, e três colunas e meia que se referem ao ouro. Inquestionavelmente, a Bíblia registra a longa história de ambos os metais como formas primárias de riqueza. "E era Abrão muito rico em gado, em prata e em ouro "(Gn 13:2). O ouro e a prata eram unidades convenientes de conta porque eles poderiam ser pesados em termos de uma unidade padrão de peso, o shekel (Gn 24:22). O Rei Asa pagou ouro e prata da tesouraria de Judá a Ben-Hadade como tributo em dinheiro (1 Reis 15:18). O fato de que este pagamento foi perfeitamente aceitável para Ben-Hadade indica quão universais estes metais eram em trocas.

   Quão valioso é o ouro? Ao fazer uma estimativa do valor incomparável dos julgamentos de Deus, Davi usa o ouro como representante padrão de comparação, embora uma comparação turva. Porém, o ouro é o mais alto padrão terreno pelo qual podemos comparar os julgamentos de Deus (Salmo 19:9-10). O ouro é desejável; quão mas desejáveis são os julgamentos de Deus! Esta mesma comparação é usada repetidamente por autores bíblicos (Salmo 119:72, 127; Provérbios 3:14; 8:10, 19; 16:16; etc.). Mesmo a Nova Jerusalém, o final e mais glorioso presente físico à humanidade redimida, é referida como sendo feita de puro ouro (Ap. 21:18). Do jardim do Éden à Nova Jerusalém, ouro é riqueza.

Sobre o autor: Gary North, ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história. North é um teórico reconstrucionista Cristão americano e historiador econômico. Já escreveu e foi co-autor de mais de 50 livros com tópicos variando entre teologia Cristã, economia e história. Visite seu website.

Sobre o texto: O texto é parte do capítulo 7 do livro Sovereignty and Dominion - An Economic Commentary on Genesis Vol. I. Baixe gratuitamente o livro aqui.

Traduzido e revisado por Matheus Henrique.

Parte II



[1] Ray R. Suton, That You May Prosper: Dominion By Covenant, 2a edição (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, [1987] 1992), cap. 4. (http://bit.ly/rstymp); Gary North, Unconditional Surrender: God’s Program for Victory, 5a ed. (Powder Springs, Georgia: American Vision, 2010), cap. 4.

[2] Ludwig von Mises, The Theory of Money and Credit (New Haven, Connecticut: Yale University Press, [1912] 1953), p. 32. (http://bit.ly/MisesTMC). Mises escreveu em 1949: “Na negociabilidade dos vários bens e serviços revalecem consideráveis diferenças. ... São estas diferenças na negociabilidade dos vários bens e serviços que criaram trocas indiretas. Um homem que no momento não pode adquirir o que ele quer para a realização de sua própria casa ou empresa, ou que ainda não sabe que tipo de bens que ele vai precisar no futuro incerto, chega mais perto de seu objetivo final, se ele troca um bem menos comerciável por um mais comerciável. Também pode acontecer que as propriedades físicas da mercadoria da qual ele quer se desfazer (como, por exemplo, sua perecibilidade ou os custos de seu armazenamento ou circunstâncias semelhantes) impelem-no a não mais esperar. Às vezes, ele pode ser solicitado a se apressar em se desfazer do bem em questão, porque ele tem medo de uma deterioração do seu valor de mercado. Em todos esses casos, ele melhora a sua própria situação ao adquirir um bem mais comerciável, mesmo que este bem não seja adequado para satisfazer diretamente nenhuma de suas próprias necessidades. ... Dinheiro é um meio de troca. É o bem mais comerciável que as pessoas adquirem porque eles querem oferecê-lo mais tarde em atos de troca interpessoal.” Mises, Ação Humana (New Haven, Connecticut: Yale University Press, 1949), p. 398. (Versão em Português: http://zip.net/byn7k4